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E tudo funciona...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.11.11

Por esta altura, já todos perceberam que gosto dos filmes do Woody Allen. Já são quatro a navegar neste rio...

Nunca apreciei o actor principal (conhecia-o de uma série em que desempenhava um papel mais do que irritante), mas este papel foi uma verdadeira surpresa! Aliás, todo o filme é uma surpresa! Diria mesmo... uma surpresa refrescante! Quem diria, um filme em que a personagem principal é um sessentão hiponcondríaco e com mau feitio, pessimista e cínico até à medula, ex-cientista de física quântica, que sobreviveu a uma tentativa de suicídio. Dá para acreditar?

Gostei da forma como o Woody interage de forma cúmplice com os espectadores, e logo desde o início do filme, através da personagem. Este jogo sempre me agradou. E já não é a primeira vez nos seus filmes.

 

Neste filme tudo acaba por funcionar, até as situações mais improváveis, o que é uma mensagem insolitamente e atrevidamente refrescante, não acham?

 

Uma rapariga vinda do "sul profundo", que não sobreviveria três dias na selva nova-iorquina, é acolhida pelo nosso cínico. Contrariado, acaba por lhe mostrar os sítios históricos e turísticos da cidade. Sem se aperceber, a rapariga estava a absorver a sua perspectiva da vida e do mundo, com pormenores científicos e tudo. Contrariamente a todas as probabilidades, acabam casados e a viver uma certa harmonia caseira.

 

A mãe da rapariga é outra revelação tardia: de mulher abandonada pelo marido passa a artista num ápice, abre-se a novas experiências acabando num "ménage à trois" com o crítico de arte e o director da galeria.

Um processo semelhante de descoberta pessoal acabará por acontecer ao pai da rapariga: aceita finalmente a sua natureza e assume um novo relacionamento.

 

A mensagem do filme é tão simples que também funciona: o mundo é um lugar tão frio, impessoal e perigoso que devemos acarinhar o que quer que funcione nas nossas vidas.

A rapariga, depois de muita hesitação, acaba por se aproximar do jovem actor, o que deixa o nosso cínico herói subitamente murcho. E até mesmo a segunda tentativa de suicídio falhada o leva a aterrar num relacionamento que funciona: uma médium que passeava o cão e ia mesmo a passar debaixo da janela. Dá para acreditar?

 

 

 

 

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publicado às 21:44

Razões que a razão desconhece - 2

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.06.10

 

Não o vi no cinema, esperei pelo DVD, ou que aparecesse nalgum dos TVCine. Sim, foi assim com este Benjamin Button, a que resisti até a curiosidade vencer. Razões desta resistência não as consigo identificar. Tinha registado dele as imagens em sépia, aquele rapazinho-velho entre talas, a erguer-se e a tentar caminhar. Isso foi na nomeação para os óscares de há 2 anos. Dos filmes nomeados destacam sempre a tecnologia e não a mensagem, a densidade da mensagem, a poesia da mensagem. E este filme revelou-se como uma das minhas mais incríveis descobertas!

 

O primeiro impacto: as pessoas comuns que são tudo menos comuns. A forma como valorizam o essencial. A forma como nunca ficam indiferentes aos outros que com eles se cruzam neste mundo, aceitando sabiamente o que a vida lhes vai revelando. Não é resignação, é outra coisa. Também não é propriamente rendição, é mais aceitação filosófica e tentar aproveitar o melhor de todas as possibilidades. Será essa a aprendizagem de Benjamin Button.

Outro impacto: a incrível poesia que o filme respira, levemente humorística (o raio que insiste em ser atraído por aquele homenzinho sobrevivente; o lado sombrio de um colega de trabalho no rebocador, chamado Grimm; o capitão que insistiu em ser quem era, um artista, não se conformando com o papel que o pai lhe impusera) e intensamente filosófica (a lealdade da amizade, a descoberta do amor, a superação da revolta, a aceitação do inevitável, a rendição final).

 

Este filme vem na linha poética de filmes dos anos 60, mas esta já é uma visão pessoal. Já me referi aqui a um filme que me deixou hipnotizada pela sua simplicidade poética: To Kill a Mockingbird. De como estes filmes dos anos 60 iniciam uma nova sensibilidade em cinema e que estarão na base de um Eduardo Mãos de Tesoura do Tim Burton, ou de um Forrest Gump, ou de um Benjamin Button. Uma nova sensibilidade na câmara, nos planos, nas personagens e nas sequências, na acção, nos diálogos e nos silêncios. Estes filmes vivem muito de silêncios. E as frases são de uma enorme densidade.

Sim, os silêncios. Que aqui são silêncios vivos, sentimo-los como uma atmosfera que vibra. O segredo: a autenticidade das personagens, mesmo que a verosimilhança seja apenas a da própria vida, passar pela vida e sentir que não se viveu, ou seguir um sonho e ter de o abandonar, ou a possibilidade de se redimir de um abandono, ou procurar recomeçar tudo de novo.

 

Benjamin não foge dos seus sentimentos, não foge do sofrimento que os acompanha, e mesmo que a sua vida guarde essa armadilha da solidão e do desencontro, na verdade ele vive-a no encontro e na comunicação. Aceita-a filosoficamente, aprende com as experiências e as pessoas que a vida lhe traz até à casa a que chama a sua casa.

Esta foi a grande aprendizagem transmitida pela mãe. Esta é a sua mãe e não poderia ter sido outra. Verá mais tarde uma fotografia de uma mulher lindíssima. Histórias paralelas que soam tristes e longínquas. Libertar-se-á de todas as histórias como uma doce despedida. 

 

Sim, se pudesse sintetizar este filme, escolheria: doces despedidas. São todas despedidas doces, nem demasiado dramáticas nem demasiado distantes: deixar-se ir.

 

Ainda há muito a dizer da descoberta deste filme. Mas fica para amanhã...

 

 

Ainda sobre Benjamin que alguns seus próximos lhe dizem ser muito especial... lembrou-me vagamente outra personagem, o Larry d' O Fio da Navalha de Somerset Maugham. Por outra razão que a razão desconhece. Ambos são especiais no sentido de diferentes na forma como vivem e interagem com os seus semelhantes, de uma forma sempre amável com todos mas autónoma, que não lhes pesa. Só que Larry é impermeável à influência de outros a não ser à de um mestre espiritual que conhece na Índia salvo erro, e Benjamin é completamente permeável às aprendizagens e às experiências. É aliás isso mesmo que o torna tão querido pelos outros. É isso também que o leva a entender os outros como se estivesse na sua pele, e aqui lembro-me de Acticus a explicar à filha de como se adquire a empatia, essa capacidade necessária para entender e conhecer os nossos semelhantes, aqui referindo-se a Boo.

 

Jogar com o tempo é sempre atractivo para criaturas que vivem obcecadas em travá-lo a todo o custo. A recente obsessão civilizacional, tudo controlar, o prazo de validade e a aparência de juventude. Será assim com a bailarina, até porque a carreira de uma bailarina é muito curta, como Benjamin lhe diz para a consolar. Quando se perde a linha nunca mais se recupera, é a frase terrível, mas uma manhã ela promete-lhe deixar de ter pena de si própria.

 

A obsessão pelo controle é muito português, sobretudo o controle de outras criaturas, penso até que essa obsessão estará na origem de muitos desvios de comportamento e de muita agressividade oculta nas relações interpessoais. Há demasiada interferência na vida uns dos outros. Mesmo nos locais de trabalho, sente-se esta necessidade de controlar outros, exercer o seu poder, e sobretudo mostrar a outros que se é poderoso ainda que numa ínfima escala ou que, no final de contas, se trate de um poder alucinado. 

A origem desta lógica doentia? A relação maternal, demasiado protectora? Não me parece que seja explicação suficiente, mas a protecção esconde realmente a necessidade de controlar a criança, não a deixa crescer, respirar à vontade, sufoca, cria dependências. É uma forma de impedir a autonomia e que dá sempre em revoltas estéreis ou rebeldias inconsequentes. Também esconde o desejo oculto de parar o tempo e manter-se no mesmo papel de poder sobre as criaturinhas.

Já me estou a desviar claramente do Benjamin mas não resisti a deixar-me levar por esta hipótese de explicação possível para a grande incidência de perturbações psiquiátricas na população portuguesa, o tema fascina-me. E esta ideia do controle não andará muito longe de uma explicação possível. Afinal, não é um dos países com mais telemóveis por habitante? E não vemos nós os nossos semelhantes pendurados ao telemóvel a toda a hora?

Outra razão que pode estar relacionada (ou não) com a necessidade de controle é ser um povo muito territorial, muito cioso do seu quinhão, da sua propriedade, mesmo que isso o impeça de se mover ou mesmo que isso o obrigue a voltar. Quando os entrevistam lá fora invariavelmente surge o termo saudade, como um sentir falta do seu lugar, da família, dos amigos.

 

Voltando ao Benjamin, amar a sua família e os amigos não o impede de dar a volta ao mundo e estar receptivo ao que a vida lhe traz, uma nova família e novos amigos (as pessoas que vêm morar nos quartos alugados, os colegas de trabalho no rebocador, a mulher inglesa que conhece num hotel em Murmansk). Aqui tudo parece natural, fluir, sem interrupções de sentido, nem fracturas na sua base, mesmo que os bem-amados partam, alguns subitamente, as tais doces despedidas. E mesmo nessa despedida tão difícil, porque surge da necessidade de libertar a mulher e a criança de mais um peso, um velho-criança, acontece porque tem de acontecer.

 

A construção da narrativa é também engenhosa, um narrador duplo: Benjamin no diário, e a filha, que o lê a uma mãe próxima da doce despedida final.

Talvez Benjamin me venha revelar mais alguma razão oculta para me ter impressionado e comovido. As palavras não são suficientes para as revelações mais interessantes. Sabemos isso mas ainda não inventámos melhor forma de comunicar. Bem, o cinema já é uma melhor forma de comunicar, não é?

 

 

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publicado às 22:03

Mrs. Muir - Gene Tierney

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.11.09

 

Desafiada por um amável viajante do Rio sem Regresso, dedico esta breve paragem da jangada, a Mrs. Muir.

Digo Mrs. Muir e não The Ghost and Mrs. Muir, porque a personagem que me fascinou quando vi e revi o filme foi sempre Mrs. Muir.

E digo Mrs. Muir-Gene Tierney porque aqui são duas e uma só, só podia ser Gene Tierney esta Mrs. Muir, a jovem viúva, mulher lindíssima, vestida de negro, véu no chapéu e tudo, aparentemente tão frágil, mas surpreendentemente determinada. Uma das personagens mais fascinantes do Cinema. Sem dúvida, uma das personagens femininas mais poéticas e cinematográficas.

 

E depois há o mar... Mrs. Muir terá ficado desde logo presa àquele mar... a brisa, a maresia, o lugar certo para passar o resto dos seus dias, dedicar-se à educação da filha, com a ajuda da governanta fiel, naquela paz...

Se a casa está acessível no mercado por causa de um fantasma de um qualquer Capitão do mar... não importa, a casa é perfeita. Mrs. Muir é uma mulher muito prática, não se detém em pormenores desses.

A família do marido morto ainda tenta demovê-la, uma mulher sozinha, ali num sítio isolado, que loucura!

Mas Mrs. Muir está decidida e nada a poderá demover: aquele é o seu lugar, a casa certa.

O seu rosto é sempre tranquilo, um leve sorriso anima-o sempre... e mesmo na hora do susto, isto é, em que qualquer pessoa medianamente corajosa gritaria de susto ao ver o fantasma... Mrs. Muir responde-lhe à letra, que não se vai deixar intimidar, faça ele o que fizer.

 

Qual é o fantasma, ainda por cima de um Capitão irascível e mal-humorado, que resiste a uma mulher que o enfrenta sem qualquer receio? Um fantasma que se preze, digamos assim, ficaria completamente desarmado em frente de Mrs. Muir.

O Capitão não será excepção. E se é possível imaginar um verdadeiro fantasma apaixonado, este é o filme em que isso acontece. Nunca mais em Cinema se verá assim um fantasma a sério, rendido a uma mulher. Ainda por cima uma mulher tão jovem e de ar tão frágil. E que tinha tido o desplante de lhe invadir a casa e a sua divisão preferida da casa, que também era a dela, a do andar de cima onde se via o mar e onde passariam a conversar tranquilamente como um velho casal.

 

Os dias passam. E nada parece perturbar a paz da casa, de uma vida simples e tranquila. E das suas conversas amenas e acolhedoras.

Até surgir o factor perturbação: um homem real, de carne e osso, e com isso nenhum fantasma pode competir.

Mrs. Muir é jovem, e numa mulher jovem há sempre uma esperança secreta, de voltar a encontrar uma companhia. E este homem soube insinuar-se na sua vida, torna-se mesmo insistente.

 

E aqui estranhamos o paradoxo na personagem: como é que uma mulher tão prática e sensata se deixa seduzir por um homem aparentemente tão banal e desinteressante? É este paradoxo o mais irritante para mim, talvez porque também o vemos na vida real: um homem tão sinuoso e falinhas mansas conseguir iludir uma mulher como Mrs. Muir...

Mas é mesmo isso que acontece. Mrs. Muir, descoberto o terrível (e medíocre) equívoco, fecha-se ainda mais no seu mundo, na casa, na dedicação à filha e desiste da ideia de uma companhia masculina. Vemos, pela primeira vez, o seu rosto fechar-se, quase triste, da desilusão mais profunda, mas a estupidez, insensibilidade e aridez do mundo não a podem atingir ali. Ali estão a salvo.

Talvez parte daquela tristeza se deva à ausência do fantasma, que desaparecera para sempre depois de a ver noutros braços. Nem um fantasma é imune aos ciúmes, e isso é mesmo muito masculino.  (1)

Pode até ser mais romântico ver aquela mulher envelhecer sozinha... bem, não está propriamente sozinha, tem o mar... mas as conversas amenas e tranquilas devem ter-lhe feito imensa falta...

 

Penso que todos os que amam este filme registaram esse final, da descida das escadas, dos dois fantasmas finalmente juntos...  (2)

Também penso que se lembram da música, magnífica, e da presença daquele mar... a envolver tudo...

E que não terão ficado indiferentes ao fascínio daquela personagem feminina, Mrs. Muir.

Toda a narrativa está perfeita. Os cenários. Os diálogos. A montagem. A atmosfera daquela casa.

Este é o Cinema que de certo modo nos transformou, aos que se deixaram fascinar pela sua narrativa própria, os enquadramentos, o encadear das cenas, os sons...

Era impossível não nos ter transformado para sempre...

 

 

 

(1) Mas o impacto no nosso fantasma, da visão de Mrs. Muir com esse homem de carácter duvidoso, será apenas ciúme? Ou um desgosto mais profundo? Desaparecer para não ver a sua amada nos braços daquele homem?

(2) A eterna juventude de um certo romantismo, na idade do fantasma de Mrs. Muir. Ao meu olhar observador, que procura o verosímil mesmo em fantasmas, achei sempre que o fantasma de Mrs. Muir teria de ter a idade em que a mesma morreu. Certamente o fantasma do Capitão correspondia à idade exacta do seu desaparecimento terreno... ou não?

 

 

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publicado às 14:17

A valsa do reencontro

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.10.08

Há a valsa do encontro. E há a valsa do reencontro.

 

Before Sunset: ambos rodopiam, primeiro filosofam, depois tornam-se mais poéticos, sonhadores, nostálgicos... a seguir brincam, ironizam, o riso ganha outro sentido... e tudo num dia e numa noite.

Também será assim no reencontro. Before Sunrise: a filosofia, o lado poético e sonhador, a nostalgia e a cumplicidade... e a descoberta incrível de que ainda são os mesmos, a magia está lá, uma mistura de alegria e tristeza, de receio e alívio, de revolta e compreensão.

É comovente ver como a valsa dos encontros e dos reencontros é universal. Como os passos, inicialmente hesitantes, se vão harmonizando, ganhando confiança, ritmo, asas.

É talvez por isso que, ao vê-los valsar, não nos sentimos intrusos. Identificamo-nos com aquela valsa.

 

Voltando ao encontro. Um dia e uma noite em Viena.

Será possível que um encontro, mesmo fora do nosso território e dos nossos hábitos, ou precisamente porque é fora do nosso território e dos nossos hábitos, nos toque assim tão profundamente?

Lembro-me de um outro filme assim, The Clock, só que aí eles não se separam, adiam a hora da separação, passam o filme a adiá-la aliás, e por pouco se desencontram, mas acabam por se reencontrar perto do tal relógio, onde se tinham conhecido. Para não voltar a desencontrar-se.

Aqui a ligação é a mesma, há uma chamazinha que se insinua logo, e pior!, uma ternura, o laço mais difícil de quebrar, porque nasce num lugar que tem raízes profundas na infância, nos sonhos e valores mais acarinhados.

Sim, como no The Clock, até nos pormenores: a simplicidade de uma conversa, de uma caminhada a pé, uma companhia agradável, emoções e sentimentos genuínos que se revelam, um olhar, um sorriso, uma entoação de voz...

Neste Before Sunset os dois filosofam mais, não páram de filosofar aliás. Deambulam pela cidade como se o tempo fosse eterno. Prolongam a conversa pela noite. A noite torna-os poéticos. A cidade surge-lhes mágica. Terminam a noite num parque, a olhar as estrelas. De manhã despedem-se na estação de comboio. Comboio: metáfora terrível para a vida, para o seu encontro e para o seu desencontro. Prometem voltar a encontrar-se daí a seis meses. Sim, como naquele filme... An Affair to Remember...

 

Interrompo aqui entre o desencontro e o reencontro... Ah, o reencontro...

 

O seu reencontro em Paris, 9 anos depois...

Ficamos com curiosidade: quem falhou ao encontro? Ela? Ele? Os dois?

Antes de saber quem falhou ao encontro, acompanhamo-los pelas ruas de Paris. E de novo, tal como em Viena, a conversa surge, natural. Conversam sobre tudo, as suas actividades, os seus hábitos, os seus valores, por onde andaram e o que andaram a fazer...

Sim, tal como em Viena, fartam-se de falar e de filosofar. De certo modo, é uma forma de reduzir a ansiedade e as dúvidas.

No início só falam das suas vidas e de como as levaram para a frente: ela, activista na área ambiental, ele, como escritor.

A pouco e pouco aproximam-se dos temas mais pessoais: os afectos, emoções, sentimentos. O que o seu encontro em Viena significou nas suas vidas. O que seria se não se tivessem desencontrado... Como sentiram esse desencontro. Como o (não) superaram.

E ficamos a saber... que foi ela que falhou ao encontro combinado. A avó morrera por esses dias, em Budapeste. E também ficamos a saber que ele teve uma trabalheira para proporcionar uma hipótese, ainda que remota, de se reencontrarem um dia.

Tal como uma valsa, que ela lhe irá cantar porque ele insiste em ouvi-la cantar, vão rodopiando, rodopiando em círculos...

Ela dir-lhe-á que no fundo é a mesma, que as pessoas não mudam no essencial. E nós vemos isso. Eles não mudaram assim tanto desde o seu encontro.

 

Há cenas verdadeiramente poéticas e comoventes:

- No jardim ele brinca com a ideia de aproveitar os últimos minutos a amá-la furiosamente. Ela finge não perceber como ele se tenta aproximar e vai mantendo barreiras subtis.

- No barco turístico pelo Sena ela dir-lhe-á que lhe doem sempre as separações porque, para ela, as pessoas são insubstituíveis. Mesmo e sobretudo pelos pequenos pormenores. Com ele, tinha sido a forma como o sol tinha brilhado na sua barba ruiva, no queixo, quando se despediram no comboio.

- Ainda no barco e à saída, quando se deslocam para o carro que o levará ao aeroporto, e depois ao longo desse percurso, ele falar-lhe-á da mulher e do filho. De como é pelo filho que procura manter a estabilidade. Que é com alguma pena que vê o amor fugir-lhes, como muitos casais em que o amor passa a ser pouco frequente, como se começam a distanciar... Que desejaria que tanto ele como a mulher fossem felizes... Ela fita-o, atónita. A imagem que tinha dele era a de um homem feliz: Pensamos sempre que só nós somos infelizes.

- E ainda nesse percurso de carro, ela confessará finalmente lembrar-se que se tinham realmente amado no parque, duas vezes, a olhar as estrelas.

E tal como em The Clock a despedida adiada, adiada, adiada. Mas ele insiste em ouvi-la cantar.O amor não é domesticável, isso ficamos a saber.

O difícil é vivê-lo, sem o querer domesticar.

O amor é uma espécie de milagre, isso também ficamos a saber. Uma probabilidade num milhão de se encontrarem, e depois muito mais provável o desencontro.

E poucos se reencontram assim. Mesmo que consigam voltar a encontrar-se, já são outros, são diferentes, a vida e os afectos passaram por eles, já não se conseguem reconhecer um no outro.

O amor também pode passar ao lado dos distraídos. E a vida e o mundo distrai-nos sempre.O amor é uma valsa. No encontro e no reencontro.Sabemos que o encontro e o reencontro é só deles. Mas também é nosso, de certo modo.

 

 

 

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publicado às 15:27

"I know things about people, Lilly..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 20.08.08

 

Esta é, para mim, a frase mais sedutora dos filmes que vi. Clint Eastwood já entradote, em herói solitário e desencantado, a tentar recuperar o tempo perdido, "I've got to come back", porque falhou da primeira vez... Na Linha de Fogo, pois.

Podem questionar-me: o quê? Clint Eastwood, e já entradote, o mais sedutor? Então, e Clark Gable, Gary Cooper, William Holden, Burt Lancaster, Paul Newman, George Clooney? Tudo bem, todos eles! E tantos outros! Mas... I know things about people, Lilly... na voz de um herói já fora de prazo, é a sedução perfeita, porque não é apenas um jogo que se joga por jogar, é a sério!, tem consistência, é uma cumplicidade de iguais, uma cumplicidade brincalhona e inteligente, parecida com a lealdade e a confiança, como se formassem uma equipa.

 

Amanhã continuo a minha defesa da sedução neste filme e por este filme...

 

O que me seduziu n' A Linha de Fogo, pois. A qualidade dos diálogos. Já não há diálogos assim. Só os vemos nos filmes dos anos 30, 40, 50. Também a fotografia, belíssima. E a música que nos embala, Ennio Morricone...

O tema do filme nem é muito interessante: um agente obcecado por ter falhado na protecção do Presidente Kennedy e que insiste em se manter no activo apesar da idade. Todos ali o querem ver pelas costas porque o consideram um obsessivo, com demasiadas exigências para apertar a segurança e reduzir os riscos. Isto em ano de eleições, dizem-lhe, não vem nada a calhar. Mas o nosso herói lá consegue ser destacado para a segurança do Presidente e, caso seja necessário, ainda irá apanhar com a bala mortal.

 

Esta é a minha personagem preferida de Clint Eastwood. Aqui acompanhado na perfeição por Rene Russo, a Lilly, no seu papel também. O encontro dos dois, magnífico! Deles podíamos dizer: e tudo começou de uma forma provocadora e sedutora. Sim, terrivelmente sedutora. I know things about people, Lilly...

Mais tarde Lilly perguntar-lhe-á: "Porque está sempre a namoriscar comigo?"

(Ah, porquê? Nós vemos perfeitamente porquê.)

"Se ela olhar para trás, é porque está interessada."  ...

E ela olhou.

Será assim até ao final do filme. A construção de uma amizade leal e de uma cumplicidade sedutora. Ao som do jazz.

Apesar das muitas peripécias, com os telefonemas de um psicopata pelo meio, e todos a afastá-lo das funções, Lilly irá defendê-lo até ao fim. E é um herói muito pouco convencional que lhe perguntará no avião: "E o que aconteceria se eu desistisse do meu trabalho por si?"

Ah, a cena final, ao som de Ennio Morricone, aquela claridade, tudo nos deixa sem palavras... a não ser, as de Clint Eastwood: I know things about pigeons, Lilly...

(Sim, isso mesmo. A conversa tranquila, lado a lado, desta vez é mesmo sobre pombos.)

 

 

 

Obs.: Podia ter escolhido o Clint Eastwood-realizador, onde é visível o seu enorme talento e o seu amor ao Cinema, mas não é esse o meu Clint Eastwood. O meu Clint Eastwood é o que largou o cavalo e as planícies do oeste e entrou na cidade, num carro-banheira dos anos 70. O Clint Eastwood já entradote, o herói solitário e romântico, independente até à medula, nada convencional, que pensa pela própria cabeça (o que lhe trará sempre problemas), e que gosta de jazz. Mesmo que esses filmes não sejam filmes maiores, como os seus, as suas personagens são sempre fabulosas.

 

 

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publicado às 15:45

Começar de um outro ponto de partida

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.03.08

 

Em The Naked Spur o nosso herói terá uma segunda oportunidade, mas será mesmo por um triz que a descobre.

A sua vida fora destruída por uma traição. Perdera tudo e é esse tudo que ele quer recuperar. Ainda que à custa do prémio pela captura de um assassino procurado.

É absolutamente comovente a forma como surge esse outro amor improvável, a forma como se protegem mutuamente, como se apoiam no final. Nessa paisagem agreste, no meio de homens desconfiados e prontos a trair e a roubar.

Depois de todas as peripécias, quando tudo parece ganho, essa troca do bandido pelo rancho, uma troca justa, descobre que esse tudo era outra coisa. Resolve dar um final digno à história e começar de um outro ponto de partida.

 

 

Muitos dias depois... descobri num outro lugar...

 

 

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publicado às 14:55


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